sexta-feira, 3 de abril de 2009

A lata.


Maria Eduarda e Benício estão juntos há dois anos. Ela não o agüenta mais, mas tem preguiça de desmanchar o namoro. Naquela tarde, Benício diz a ela que precisam conversar: ele gosta muito dela mas está em crise, precisa ficar sozinho uns tempos e quer terminar o namoro. Ela se esforça para não parecer feliz demais com a idéia, diz que tudo bem, eles podem continuar amigos. E vai para casa comemorar a liberdade com morangos e creme de leite. A lata de creme de leite semi-aberta escorrega no balcão da pia e a tampa de metal faz um corte profundo no pulso de Maria Eduarda. O creme de leite e o sangue se misturam no chão da cozinha enquanto Maria Eduarda tenta improvisar um torniquete com um pano de prato. O sangue jorra de seu pulso. Maria Eduarda sai de casa e caminha apressadamente até o pronto-socorro, felizmente a poucos metros de sua casa. (...)O pai de Maria Eduarda senta ao seu lado, na cama. Pergunta se ela quer mais suco. Ela não quer. Pergunta se ela quer conversar com ele sobre o que aconteceu. Ela diz que já contou tudo que havia para contar. Se ela quiser conversar, é só chamar. Claro, ela diz. Todos os colegas perguntam o que houve. Ela conta da lata de creme de leite. A Crica não parece acreditar muito na história. E pergunta se é verdade que o Benício terminou com ela. Ela diz que sim. E todos ficam em silêncio. A professora chama Maria Eduarda para conversar, depois da aula. Pergunta se ela está bem. Ela diz que está ótima, não foi nada. (...)Maria Eduarda chega em casa e Benício está lá, com a mãe dela, na sala. Maria Eduarda diz oi, o que você está fazendo aqui? Benício diz que passou só para visitar, que queria saber se ela estava bem. Ela diz que está ótima e sobe para o quarto. Maria Eduarda acorda no meio da noite, com a tevê ligada. Levanta e desliga. O pulso lateja e ela tem muita sede. Maria Eduarda vai até a cozinha. Pega uma caixa de suco na geladeira. Abre a gaveta do armário com cuidado para não fazer barulho e pega uma faca para abrir a caixa de suco. Não faça isso!, grita sua mãe, na porta da cozinha. Maria Eduarda leva um susto e deixa cair a caixa de suco. A mãe corre e a abraça, chorando. Minha filhinha, nós te amamos tanto, ela diz. Maria Eduarda diz, eu sei mãe, eu só queria tomar um suco. E a mãe diz, vai deitar, minha filha, eu levo para você. Maria Eduarda entra na sala de aula e todos param de falar. Ela olha para Crica, que desvia o olhar. Maria Eduarda senta. A professora ainda não chegou. Crica se aproxima e pergunta se ela sabe que o Benício está namorando a Silvia Meneghinni, da 202. Se ela não sabe é melhor saber logo, que ela só está contando porque é amiga, antes que ela faça mais uma loucura. Maria Eduarda se vira para Crica e diz bem alto, para que a sala inteira escute, que ela está pirada, que não fez loucura nenhuma, que eles todos é que estão loucos em pensar que ela tentou se matar cortando os pulsos por causa do Benício, que ela já queria terminar o namoro há muito tempo, que o Benício é um idiota cheio de espinhas, que ele fala "menas" e escreve atrasado com "z" e tem um pau deste tamainho assim. Ela ergue uma borracha verde, de aproximadamente seis centímetros, para ilustrar o tamanho do pau de Benício.
Ontem, ao tentar abrir uma lata de azeite, Benício cortou os dois pulsos.
[jorge furtado]

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